Mais uma vez, o Nordeste vira alvo fácil de manchetes tendenciosas. A matéria do jornal O Globo que classifica o São João como “festa da ostentação” não só ignora a complexidade econômica e cultural das festas juninas, como também escancara o velho preconceito envernizado de análise jornalística.
Por que quando o Rio de Janeiro traz Madonna ou Lady Gaga para Copacabana, com milhões de reais investidos em produção, palco e segurança, isso é visto como “investimento em cultura, turismo e imagem internacional”? E quando Campina Grande ou Caruaru trazem nomes como Wesley Safadão ou Simone Mendes, é “gasto” e “ostentação”?
Essa é a famosa síndrome de vira-lata com endereço certo: o Nordeste. A mesma região que sustenta o Brasil com sua agricultura, sua pesca, sua força de trabalho, sua cultura — e, sim, com suas festas. Porque São João, diferente do que muitos entendem, não é só um palco iluminado. É identidade, é pertencimento, é economia local girando, é emprego temporário, é a venda da dona Maria no milho, do seu João no isopor, é turismo lotando pousadas, táxis, restaurantes.
Chamar isso de ostentação é diminuir o valor simbólico, econômico e histórico de uma celebração que resiste à tentativa de apagar o Nordeste da centralidade cultural do Brasil. Pior: é aplicar dois pesos e duas medidas. O que é investimento quando vem do Sul-Sudeste, vira “exagero” quando é no Nordeste.
Não nos calaremos. O Nordeste tem o direito de fazer festa. Tem o direito de celebrar. E, acima de tudo, tem o direito de ser grande. Porque já carrega o Brasil nas costas há tempo demais — e ainda tem que ouvir que tá exagerando quando dança forró no meio da rua.





