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Crônica: A Democracia de Vidro

Brazilian Supreme Court judge Luiz Fux gestures during hearings involving former Brazilian President Jair Bolsonaro and his associates accused of attempting a coup d'état in January 2023, in Brasilia, on June 10, 2025. Brazil's Jair Bolsonaro helped draft a plan to "redo the election" he narrowly lost in 2022, a co-accused testified in the former president's coup trial on Monday. Prosecutors accuse the 70-year-old far-right leader, who governed Brazil from 2019 to 2022, of having led a "criminal organization" plotting to wrest power from leftist election victor Luiz Inacio Lula da Silva. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

O Supremo, nestes dias, parece mais um palco de teatro grego. Cada ministro sobe à cena com sua toga como manto e seu voto como oráculo. A plateia — formada por nós, sociedade, e pelos intérpretes oficiais, a imprensa — aguarda ansiosa a fala de cada ator. Mas a reação não é a mesma: alguns recebem aplausos de pé, outros são vaiados antes mesmo de terminar a frase.

Quando Alexandre de Moraes ergue a voz, soa como música aos ouvidos de muitos jornalistas. Quando Dino acompanha, o refrão é repetido com entusiasmo. Mas quando Luiz Fux ousa romper o coro, o compasso se desmancha: “estranho”, “curioso”, “Fux contra Fux”. A divergência não é escutada como parte da sinfonia; é tratada como ruído.

Eis a fragilidade da nossa democracia: ela se apresenta como cristal brilhante, mas basta um toque fora do esperado para trincar. Aceitamos Moraes, aceitamos Dino, mas não aceitamos Fux. Como se a democracia fosse uma vitrine de conveniências e não um campo de embates.

Esquecemos que a democracia não é um espelho que deve refletir apenas o nosso rosto. É um mosaico de reflexos, muitos deles desconfortáveis, alguns até dissonantes. Queremos um tribunal que decida, mas não suportamos que decida de modo diverso do que já havíamos pré-escolhido. Queremos juízes independentes, mas só até que eles se atrevam a contrariar o script.

O que se viu hoje não foi apenas um voto. Foi o teste da nossa maturidade coletiva. Porque defender a democracia é aceitar que nem sempre o prato servido terá o sabor que esperamos. É engolir o amargo, quando necessário, sem cuspir no prato.

Se só aplaudimos a democracia quando ela nos favorece, estamos diante de uma farsa. Democracia de vidro: bela, translúcida, mas frágil, pronta para estilhaçar no primeiro sinal de contrariedade.

A grande pergunta, portanto, permanece suspensa no ar, como espada sobre nossas cabeças: queremos mesmo a democracia em toda a sua dureza, ou apenas a conveniência de um coro uníssono? Se for a segunda opção, não será preciso novos atos de vandalismo para ameaçá-la. Ela já estará sendo corroída, silenciosamente, por dentro.

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