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A Tela que Insiste em Ser Branca

No Dia da Consciência Negra, a televisão alagoana é um espelho quebrado: reflete a luz errada, distorce nossos contornos, multiplica rostos que não são os nossos. A tela brilha, sim, mas é um brilho pálido, feito de neblina que esconde os tons profundos da nossa pele, as tramas da nossa história, os nomes que escorrem na memória.

Zumbi está em cada esquina desta terra, mas raramente na tela. Palmares pulsa nas veias do estado, mas a câmera se vira para o que é claro, para o que é seguro, para o que poucos ousam chamar de lar. A TV nos vê como figura de poesia antiga, não como voz que respira agora.

Há um eco, um eco delicado, quando um negro aparece. É como se a emissora sussurrasse: “Sim, você existe”, mas logo voltasse a calar. É um murmúrio de permissão, não uma celebração de pertencimento. E esse murmúrio dói mais do que a ausência escancarada: porque nos lembra de que sempre precisamos pedir para ser vistos.

Na programação alagoana, a negritude não dança no palco principal. Ela canta nas margens, sussurra nos intervalos, aparece em flashes fugazes. Mas não floresce. Não comanda. Não rimou ainda com poder.

Somos poesia ancestral, mas a TV não nos recita. Estamos no chão que somos parte, mas a câmera nos ignora. E assim a imagem que ela transmite é incompleta, é um retrato branco de uma terra que é escura, rica, viva.

Que um dia a tela se transforme: que mostre não apenas o que é seguro para o espelho dela, mas o que é real para nós. Que nossos rostos, nossos nomes, nossas vozes ocupem o espaço que nos pertence. Que a TV alagoana se torne, enfim, um poema plural.

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